<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" ><generator uri="https://jekyllrb.com/" version="4.3.4">Jekyll</generator><link href="https://blog.cabra.su/feed.xml" rel="self" type="application/atom+xml" /><link href="https://blog.cabra.su/" rel="alternate" type="text/html" /><updated>2025-10-31T20:16:27+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/feed.xml</id><title type="html">Cabra Lattice</title><subtitle>Welcome to my blog
</subtitle><author><name>Cabra</name></author><entry xml:lang="pt-br"><title type="html">Falta Algo Na Matemática</title><link href="https://blog.cabra.su/falta-algo-na-matem%C3%A1tica.html" rel="alternate" type="text/html" title="Falta Algo Na Matemática" /><published>2025-08-29T00:00:00+00:00</published><updated>2025-08-29T00:00:00+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/falta-algo-na-matem%C3%A1tica</id><content type="html" xml:base="https://blog.cabra.su/falta-algo-na-matem%C3%A1tica.html"><![CDATA[<!-- Tá bom, aqui está seu easter egg, hackerzinho! -->

<div style="display: none;">
<img src="assets/2025/08/29/imgs/wtc.png" /> <small> A matemática é um avião com duas asas antagônicas, que sobrevoa uma cidade densamente povoada... indo em direçaõ ao WTC, enquanto é crivado de balas e se torna o próprio avião do viés do sobrevivente </small>
</div>

<p><img src="assets/2025/08/29/imgs/airplanes.png" alt="o-aviao-da-matematica" /> <small> A matemática é um avião com duas asas antagônicas, que sobrevoa uma cidade densamente povoada.</small></p>

<p>Axiomas são como as regras básicas de um jogo. Não provamos que são verdadeiras - simplesmente aceitamos para poder começar a jogar. Na matemática, essas regras fundamentais são os pontos de partida a partir dos quais construímos todo o resto.</p>

<p>Vamos pensar na geometria que aprendemos na escola, a geometria euclidiana. Euclides, há mais de dois mil anos, estabeleceu cinco postulados que pareciam tão óbvios que ninguém questionava. Quatro deles eram simples: que podemos traçar uma reta entre dois pontos, que podemos prolongar retas indefinidamente, que podemos desenhar círculos, e que todos os ângulos retos são iguais. Mas o quinto postulado, o das paralelas, sempre foi problemático.</p>

<p>Esse quinto postulado diz que, por um ponto fora de uma reta, só podemos traçar uma única reta paralela àquela reta. Durante séculos, matemáticos como <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Ptolomeu</code>, <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Proclo</code>, <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Nasiredine</code>, <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Clavio</code>, <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Wallis</code> e <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Saccheri</code> tentaram provar que essa “verdade” podia ser deduzida dos outros quatro postulados. <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Saccheri</code>, em particular, dedicou-se profundamente a essa tarefa, analisando o que hoje chamamos de “quadriláteros de <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Saccheri</code>”, mas mesmo ele, ao explorar a hipótese do ângulo agudo, inadvertidamente desenvolveu resultados da geometria hiperbólica sem perceber.</p>

<p>A grande reviravolta veio no século XIX, quando <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Gauss</code>, <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolyai</code> e <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Lobachevsky</code> perceberam que não era possível provar esse postulado porque ele não era necessariamente verdadeiro. A surpreendente descoberta foi que, ao remover este postulado, se assumíssemos que por um ponto poderiam passar várias retas paralelas a uma dada reta, não caíamos em contradição - apenas criávamos uma nova geometria, diferente da euclidiana, mas igualmente consistente.</p>

<p>Hoje chamamos isso de geometria hiperbólica.</p>

<p>E o mais surpreendente: essa geometria “estranha” foi exatamente o que precisariamos para descrever o espaço-tempo na teoria da relatividade de Einstein. A natureza, parece, não se importa com nossas intuições sobre o que é “óbvio” ou não. Nossa intuição é limitada pela nossa percepção e ampliada pelo desenvolvimento dessas ferramentas sofisticadas do conhecimento.</p>

<p>Na teoria dos conjuntos, que é a base da matemática moderna, temos um problema similar com o chamado Axioma da Escolha. Esse axioma diz que, se temos uma coleção de conjuntos não vazios, podemos sempre escolher um elemento de cada conjunto, mesmo que sejam infinitos. Parece razoável, mas leva a resultados que desafiam nossa intuição, como o paradoxo de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Paradoxo_de_Banach%E2%80%93Tarski">Banach-Tarski</a>: é possível cortar uma esfera em pedaços e remontá-los para formar duas esferas idênticas à original.</p>

<p>O que torna esse axioma tão intrigante é que não podemos provar se ele é verdadeiro ou falso. Em 1938, <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Gödel</code> mostrou que, se a teoria dos conjuntos sem o axioma da escolha é consistente, então também é consistente com ele. Depois, em 1963, <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Cohen</code> provou que também é consistente sem ele. Ou seja, temos duas matemáticas possíveis: uma onde o axioma da escolha vale, e outra onde não vale. Ambas funcionam, mas cada uma permite demonstrar teoremas diferentes.</p>

<p>Aqui está o cerne da questão: <strong>não existem meios-termos</strong>. Ou assumimos alguma forma do Axioma da Escolha, ou não assumimos. Não há “formas mais fracas” que resolvam o problema fundamental - são apenas maneiras diferentes de escondermos a escolha debaixo do tapete. É uma decisão irredutível que precisamos fazer, não algo que possamos contornar com truques formais.</p>

<p>Na prática, a maioria dos matemáticos aceita o axioma da escolha porque ele simplifica muitas demonstrações. Com ele, podemos provar que todo espaço vetorial tem uma base, que todo anel com unidade tem um ideal maximal, e muitos outros resultados fundamentais.</p>

<blockquote>
  <p>Cheque-mate, matemáticos! Vocês <em>também</em> são pragmáticos quando ninguém os observa!</p>
</blockquote>

<p>Perdemos essas ferramentas poderosas, mas ganhamos um mundo onde todos os conjuntos de números reais podem ser mensuráveis (como mostrou <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Solovay</code> em 1970, sob certas hipóteses adicionais), evitando paradoxos que fazem matemáticos ficarem acordados até tarde da noite.</p>

<p>A Física, por exemplo, não se importa se aceitamos ou não o axioma da escolha, porque trabalhamos em uma pragmática em que os resultados e a capacidade de predição é o critério da verdade. Inclusive, Físicos em geral não se preocupam com formalismos e costumam <em>jogar infinitos para debaixo do tapete</em>, e em geral, descobre-se que estavam certos no final.</p>

<p>Se os físicos e físicas se importassem com a consistência matemática absoluta, não teria existido transistor nem computadores!</p>

<p>Em especial, a mecânica quântica moderna é formulada em espaços de <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Hilbert</code>. O teorema fundamental que afirma que “todo espaço de <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Hilbert</code> tem uma base ortonormal” é <strong>equivalente ao Axioma da Escolha completo</strong>. Não há como contornar essa vergonha com “formas mais fracas” - ou assumimos esta verdade fundamental <strong>extra</strong> ou abandonamos parte da estrutura matemática necessária para descrever o mundo quântico.</p>

<p>De certa maneira, a matemática parece antecipar os múltiplos universos possíveis, os diferentes regimes de validade, cada um com suas próprias regras e propriedades. Por princípio de economia, uma matemática com o menor número de axiomas seria, em tese, mais “correto”, no entanto dificilmente você verá um Engenheiro Civil construindo um prédio de dimensões usuais usando Relatividade Geral.</p>

<p>A dialética marxista, com sua tríade de tese, antítese e síntese, oferece uma lente fascinante para analisar a evolução das estruturas matemáticas. As contradições são inerentes a nossa percepção da realidade: sentimos o calor do fogo e o frio da noite, apesar de ambos se tratarem do mesmo fenômeno de escoamento de energia térmica; detectamos a partícula e a onda, apesar do fenômeno ser uma terceira coisa que não conseguimos discernir.</p>

<p>Nosso cérebro trabalha com neurônios que se ativam dentro de um limiar químico e quando tentamos modelá-lo, usamos uma funções sigmoides e suas aproximações como separadores lineares, onde tentamos discernir o <span class="katex"><span class="katex-mathml"><math xmlns="http://www.w3.org/1998/Math/MathML"><semantics><mrow><mn>0</mn></mrow><annotation encoding="application/x-tex">0</annotation></semantics></math></span><span class="katex-html" aria-hidden="true"><span class="base"><span class="strut" style="height:0.6444em;"></span><span class="mord">0</span></span></span></span> do <span class="katex"><span class="katex-mathml"><math xmlns="http://www.w3.org/1998/Math/MathML"><semantics><mrow><mn>1</mn></mrow><annotation encoding="application/x-tex">1</annotation></semantics></math></span><span class="katex-html" aria-hidden="true"><span class="base"><span class="strut" style="height:0.6444em;"></span><span class="mord">1</span></span></span></span>, mesmo que essa separação nunca seja bem definida.</p>

<p>Talvez justamente por isso, percebemos que não há síntese definitiva, apenas um <strong>ciclo infinito de tensões irredutíveis</strong> que moldam nosso entendimento da realidade. Um verdadeiro <em>samsara</em> matemático, um ciclo infinito de escolhas onde nenhuma verdade absoluta parece emergir, apenas perspectivas provisionais que sustentam nossa construção coletiva do conhecimento.</p>

<p>Assim como a deusa hindu Maya teceria a ilusão que nos separa da verdade última, também na matemática permanecemos presos a <strong>ilusões pragmáticas</strong>. Aceitamos o AC porque ele “funciona”, mesmo sabendo que é uma escolha arbitrária. Construímos prédios, enviamos foguetes e modelamos átomos usando sistemas axiomáticos que, em última instância, são <strong>convenções humanas</strong> que apesar de tudo são extremamente consistentes.</p>

<blockquote>
  <p>Então, sim, falta algo na matemática.</p>

  <p>Isso, porém, não importa!</p>
</blockquote>

<p>Os aviões não vão despencar dos céus, os prédios não desmoronarão amanhã, as bolsas de valores não quebrarão e muito menos os átomos explodirão em uma desestabilização cósmica.</p>

<p><strong>Outras leituras:</strong></p>

<ul>
  <li><a href="https://www.cut-the-knot.org/triangle/pythpar/NonEuclid.shtml">Non-Euclidean Geometries</a></li>
  <li><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Postulado_das_paralelas">Wikipédia - Postulado das Paralelas</a></li>
  <li><a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Axiom_of_choice">Wikipedia - Axiom of choice</a></li>
  <li><a href="https://petmatematica.ufpr.br/posts/2025/petiscos/axioma-escolha/">Os paradoxos de uma lógica axiomática e a polêmica do Axioma da Escolha - PETscos - UFPR</a></li>
</ul>]]></content><author><name>Cabra</name></author><category term="math" /><summary type="html"><![CDATA[(E tudo bem!) Aviões não vão despencar, prédios não serão derrubados.]]></summary></entry><entry xml:lang="pt-br"><title type="html">Materialismo Estoico Deletério</title><link href="https://blog.cabra.su/materialismo-estoico-delet%C3%A9rio.html" rel="alternate" type="text/html" title="Materialismo Estoico Deletério" /><published>2025-08-28T00:00:00+00:00</published><updated>2025-08-28T00:00:00+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/materialismo-estoico-delet%C3%A9rio</id><content type="html" xml:base="https://blog.cabra.su/materialismo-estoico-delet%C3%A9rio.html"><![CDATA[<p><img src="assets/2025/08/28/imgs/fast-or-slow.png" alt="trolley-fast-slow" /> <small> “Desejam uma morte lenta e dolorosa, ou uma morte rápida?” - Que tal se organizar para que a morte não seja uma opção? </small></p>

<p>Ultimamente tenho lido o livro <a href="https://www.marxists.org/portugues/stalin/1938/09/mat-dia-hist.htm"><em>Dialectical and Historical Materialism</em></a>, de J. V. <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Stalin</code>, sim aquele mesmo: patente alta, dá aula, bigode <strong>grosso</strong>.</p>

<p>No livro publicado em 1938 e atribuído ao camarada <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Stalin</code>, se discorre brevemente sobre os pressupostos básicos do método desenvolvido por <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code>, no auge do agravamento das tensões que culminariam na <strong>Grande Guerra Patriótica</strong>.</p>

<p>São três capítulos curtos e didáticos, com as citações originais dos textos e algumas ponderações do autor.</p>

<p>A <strong>dialética</strong> não era uma novidade no mundo da filosofia e <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Hegel</code> já descrevia que sempre que uma nova ideia surge (a <strong>tese</strong>), surge uma ideia contrária (a <strong>antítese</strong>) e no embate entre estas duas, surge uma terceira ideia que supera e preserva as anteriores, a <strong>síntese</strong>.</p>

<p><code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code>, no entanto, abandona o idealismo de <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Hegel</code> com a compreensão de que a natureza <em>vem primeiro</em>, a realidade está posta antes que a nossa consciência a interprete. A natureza é conectada, determinada, em um estado contínuo de movimento e mudanças, cujas mudanças quantitativas levam a mudanças qualitativas e as contradições são inerentes a natureza.</p>

<p>Essa filosofia natural surge com o processo de desencanto da humanidade, surgimento das ciências naturais e do <strong>materialismo</strong>. Inicialmente sendo usado como um insulto, o materialismo traz a <strong>realidade objetiva</strong> e a ideia de que o mundo e suas leis são <em>conhecíveis</em>, mesmo que em primeiro momento sejam <em>desconhecidas</em>.</p>

<p>As novas ideias surgem justamente através das <strong>condições materiais</strong> de uma sociedade: As suas <em>demandas</em>, sem as quais seria impossível o seu desenvolvimento. Porém quais seriam essas condições?</p>

<p>É exatamente aqui que entra o materialismo <strong>histórico</strong>, que vem responder quais seriam as condições materiais necessárias, e segundo <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Stalin</code>, <em>determinantes</em> para moldar uma sociedade. O texto então levanta diversos exemplos que não são <em>determinantes</em>:</p>

<p><em>“Seria a geografia de um lugar?”</em>. Não. Existiram diversos sistemas sociais diferentes ao longo de um período de 3 mil anos na Europa, as condições geográficas mudaram? No sentido geológico, mudou muito pouco.</p>

<p><em>“Seria o crescimento populacional?”.</em> Não. Na <code class="language-plaintext highlighter-rouge">China</code> da época de <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Stalin</code>, a densidade populacional era quatro vezes maior que a dos <code class="language-plaintext highlighter-rouge">EUA</code>, porém um sistema semi-feudal ainda vigorava.</p>

<p><em>“Seria o trabalho, puro e simples?”</em>. Acrescento eu. Não, cavar um buraco com um garfo dá bastante trabalho e por mais que um sádico fetichista bilionário te pague para fazê-lo, nenhuma mudança substancial na sociedade teria acontecido.</p>

<p>Por fim, o texto responde: A força motriz que determina as condições de uma sociedade (pasmem!) estão nos métodos necessários para fomentar a existência de vida humana: comida, roupa, sapatos, casas, combustível, etc.</p>

<p>Ou seja, o desenvolvimento das <strong>forças produtivas</strong> é o principal responsável por moldar uma sociedade. <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Stalin</code> porém via este fator como uma <em>determinação</em>, defendendo a tese de que a <code class="language-plaintext highlighter-rouge">URSS</code> sob sua tutela estaria superando as contradições do capitalismo através do planejamento centralizado, colocando de lado a própria <strong>dialética</strong> marxista em favor de uma visão <em>determinista</em>  (se <span class="katex"><span class="katex-mathml"><math xmlns="http://www.w3.org/1998/Math/MathML"><semantics><mrow><mi>X</mi></mrow><annotation encoding="application/x-tex">X</annotation></semantics></math></span><span class="katex-html" aria-hidden="true"><span class="base"><span class="strut" style="height:0.6833em;"></span><span class="mord mathnormal" style="margin-right:0.07847em;">X</span></span></span></span> então apenas <span class="katex"><span class="katex-mathml"><math xmlns="http://www.w3.org/1998/Math/MathML"><semantics><mrow><mi>Y</mi></mrow><annotation encoding="application/x-tex">Y</annotation></semantics></math></span><span class="katex-html" aria-hidden="true"><span class="base"><span class="strut" style="height:0.6833em;"></span><span class="mord mathnormal" style="margin-right:0.22222em;">Y</span></span></span></span>) e <em>etapista</em> (primeiro <span class="katex"><span class="katex-mathml"><math xmlns="http://www.w3.org/1998/Math/MathML"><semantics><mrow><mi>X</mi></mrow><annotation encoding="application/x-tex">X</annotation></semantics></math></span><span class="katex-html" aria-hidden="true"><span class="base"><span class="strut" style="height:0.6833em;"></span><span class="mord mathnormal" style="margin-right:0.07847em;">X</span></span></span></span>, então depois <span class="katex"><span class="katex-mathml"><math xmlns="http://www.w3.org/1998/Math/MathML"><semantics><mrow><mi>Y</mi></mrow><annotation encoding="application/x-tex">Y</annotation></semantics></math></span><span class="katex-html" aria-hidden="true"><span class="base"><span class="strut" style="height:0.6833em;"></span><span class="mord mathnormal" style="margin-right:0.22222em;">Y</span></span></span></span>).</p>

<p>Lendo superficialmente o texto, pode-se interpretar seu famoso trecho como uma posição <strong>Aceleracionista</strong>:</p>

<blockquote>
  <p><em>“não é dissimular as contradições do regime capitalista, mas pô-las a descoberto e revelá-las em toda a sua extensão, não é amortecer a luta de classes, mas levá-la consequentemente a cabo”</em></p>
</blockquote>

<p>Na verdade, ele está estabelecendo um terceiro caminho entre o <strong>Aceleracionismo</strong> e o <strong>Freacionismo</strong>, se adotarmos um termo dialético ao que <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Stalin</code> chamaria de <em>reformismo</em>.</p>

<p>A posição <strong>Freacionista</strong> propõe que devemos <strong>suavizar as contradições</strong> do capitalismo através de reformas graduais, evitando confrontos radicais e humanizando o capitalismo através de regulação e políticas sociais, tentando resolver problemas sistêmicos com remendos temporários e confunde o alívio temporário dos sintomas com a cura da doença.</p>

<p>(E já me adiantando, <strong>não</strong>, os governos petistas não são <strong>Freacionistas</strong>, parem de ouvir <em>webcomunista</em> imediatamente e entendam de uma vez por todas o materialismo-histórico-dialético)</p>

<p>A posição de <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Stalin</code>, alinhada a posição marxista, se propõe revelar as contradições que já estão ali, de modo que a revolução ecluda naturalmente quando as condições materiais estão maduras. Esta posição evita tanto os perigos do reformismo quanto os da aceleração artificial, mantendo o foco no desenvolvimento das forças produtivas e na organização política consciente.</p>

<p>A diferença crucial entre estas posições reside em como cada uma entende o <strong>tempo histórico</strong>, ambos tratam as contradições do capitalismo como algo a ser gerenciado (seja acelerando ou suavizando), em vez de serem confrontadas através da organização política consciente.</p>

<p>A esquerda forte não precisa trabalhar ativamente para o pior, querendo chegar ao melhor, nem tampouco acreditar que o capitalismo pode ser consertado com esparadrapos. Precisamos reconhecer que um colapso não terá dono - ele pode ser apropriado, e foi em muitos momentos, por forças reacionárias. Nossa tarefa é construir, aqui e agora, as <strong>condições materiais</strong> e <strong>organizativas</strong> para que, quando as contradições do capitalismo amadurecerem, possamos oferecer uma alternativa real, não apenas um caos sem rumo.</p>

<p><img src="assets/2025/08/28/imgs/organize-se.png" alt="trolley-alternative" /> <small> Sem as condições materiais uma pessoa jamais se liberta. Sem organização uma pessoa liberta jamais pararia o trem.  </small></p>]]></content><author><name>Cabra</name></author><category term="politics" /><summary type="html"><![CDATA[Rápido ou devagar, precisamos construir alternativas.]]></summary></entry><entry xml:lang="pt-br"><title type="html">Acelera Celera Jesus</title><link href="https://blog.cabra.su/acelera-celera-jesus.html" rel="alternate" type="text/html" title="Acelera Celera Jesus" /><published>2025-08-26T00:00:00+00:00</published><updated>2025-08-26T00:00:00+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/acelera-celera-jesus</id><content type="html" xml:base="https://blog.cabra.su/acelera-celera-jesus.html"><![CDATA[<p>Se você está lendo isso, significa que sobreviveu a <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_datas_previstas_para_eventos_apocal%C3%ADpticos">mais um fim do mundo</a>. Parabéns!</p>

<p><img src="assets/2025/08/26/imgs/salvador.png" alt="salvador" /> <small> De repente, <em>Jesus</em> as encontrou e disse: “<em>Salve</em>!” - Mateus 28:9 NVI </small></p>

<p>Desde o início os cristãos do primeiro milênio tentaram prever a segunda vinda de Jesus Cristo - entre as diversas datas estimadas, um total de zero foram confirmadas. A lista de fracassos é impressionante: do bispo <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Martinho de Tours</code> que previu o fim antes do ano 400, passando por <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Joaquim de Fiore</code> que calculou o Milênio para 1200-1260, até <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Harold Camping</code> que apostou no dia 21 de maio de 2011.</p>

<p>O que fascina nessa história repetida é como a <strong>escatologia</strong> - a doutrina sobre o “fim dos tempos” - nunca morre, apenas se transforma. Hoje, em vez de monges medievais calculando anos bíblicos, temos setores da esquerda repetindo uma versão secularizada da mesma profecia.</p>

<p><code class="language-plaintext highlighter-rouge">Benjamin Noys</code>, é um teórico que cunhou o termo <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Aceleracionismo</code> dentro da <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Teoria Crítica</code> contemporânea, e como não poderia de ser mais <em>prepúcio</em>, se tornou um de seus principais críticos. Em seu livro, <em>Malign Velocities</em> ele afirma que essa ideia não surge como uma teoria política séria, mas como uma série de provocações filosóficas extremas, que para a surpresa de ninguém, tem como origem os quatro cavaleiros do apocalipse pós-moderno: Gilles <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Deleuze</code>, Félix <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Guattari</code>, Jean-François <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Lyotard</code> e Jean <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Baudrillard</code>.</p>

<p>É incrível a semelhança dessa mentalidade com os cristãos do primeiro milênio, que vinham nos dizer que o colapso não apenas era inevitável, mas desejável. Agora, tal qual os cultos mortais que surgiram ao redor dessa insatisfação na demora do retorno do salvador, o caos não somente é <strong>desejável</strong>, mas devemos fazer algo para conjurar este redentor ao mundo.</p>

<p>Antes mesmo da proliferação dessas ideias <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code> já tinha nos alertado quando ele escreve em 1859 que <em>“nenhuma ordem social é jamais destruída antes que todas as forças produtivas para as quais é suficiente tenham sido desenvolvidas”</em>, ele nunca acreditou que o capitalismo levaria automaticamente ao comunismo.</p>

<p>Em O Manifesto Comunista, <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code> e <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Engels</code> argumentaram já na abertura que a história da humanidade é a história da luta de classes, e que, uma crise capitalista apenas coloca a escolha entre uma <em>ruína comum das classes em luta</em> ou <em>a reconfiguração revolucionária de toda a sociedade</em>.</p>

<p>Ao almejar esta última, sem construir alternativas concretas no presente, o <strong>Aceleracionismo</strong> ignora que <strong>o colapso não tem dono</strong> - ele pode ser apropriado por forças reacionárias tanto quanto por forças progressistas. Ao cair nesta armadilha escatológica, podemos estar rumando a um mundo em que a <strong>ruína comum</strong> talvez seja o cenário menos pior.</p>

<p><img src="assets/2025/08/26/imgs/69.png" alt="69" /> <small> “mas e aí é um 6 ou um 9 hein…”
É um sessenta e nove, eu sou o 6 e você é o nove, filhadaputa!
</small></p>

<p><code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code> disse que <em>“os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa, porém, é transformá-lo”</em>, com esse desprendimento de responsabilidade, os filósofos hoje tem sido responsáveis por influenciar justamente aqueles que possuem poder para transformá-lo, as classes dominantes.</p>

<p>É impossível entender a atual “merdificação” da esquerda sem culpar diretamente os filósofos pós-modernos que criaram as condições teóricas para esse desastre. Não apenas prepararam o terreno para o <strong>Aceleracionismo</strong> de esquerda que reduziu a política a uma mera questão de “velocidade”, mas também, ironicamente, plantaram as sementes para o surgimento do <strong>Aceleracionismo</strong> de direita através de <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Nick Land</code>.</p>

<p>A tragédia é que esses pensadores, ao rejeitarem categorias como “verdade objetiva”, “progresso” e “razão universal”, criaram um vácuo teórico que primeiro minou a capacidade da esquerda de distinguir entre o que é progressivo e o que é reacionário, e depois foi apropriado por uma direita que, graças a essa herança teórica, agora possui uma linguagem sofisticada para defender o neoliberalismo extremo como “revolução maquínica”.</p>]]></content><author><name>Cabra</name></author><category term="politics" /><summary type="html"><![CDATA[Vamos entender a filosofia do fim do mundo e a leitura escatológica de Marx]]></summary></entry><entry xml:lang="pt-br"><title type="html">Sera Que É Só Burrice Mesmo ?</title><link href="https://blog.cabra.su/sera-que-%C3%A9-s%C3%B3-burrice-mesmo.html" rel="alternate" type="text/html" title="Sera Que É Só Burrice Mesmo ?" /><published>2025-08-24T00:00:00+00:00</published><updated>2025-08-24T00:00:00+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/sera-que-%C3%A9-s%C3%B3-burrice-mesmo-</id><content type="html" xml:base="https://blog.cabra.su/sera-que-%C3%A9-s%C3%B3-burrice-mesmo.html"><![CDATA[<p>Não deve ser nenhuma novidade para vocês que me acompanham nas redes que nutro um recente interesse por política em geral. Eu nunca considerei que entendia muito bem sobre o assunto, mas sempre me considerei uma espécie de centrista à esquerda, justamente por reconhecer as contribuições dos governos petistas na minha formação, sem as quais eu provavelmente nunca teria me formado na USP (literalmente, minha família jamais teria tido condições financeiras para tal).</p>

<p>Sempre tentei entender a política através de uma análise de certa forma racional, herança da formação acadêmica em áreas exatas, e sempre tentei evitar defender com unhas e dentes o que eu considero não <strong>entender</strong> direito, justamente por princípio de <em>parcimônia</em>. No entanto, sempre entendi que era importante entender em algum momento da minha vida (uma vez que ela estivesse melhor resolvida).</p>

<p><img src="assets/2025/08/24/imgs/burro.png" alt="burro" /></p>

<h3 id="isso-mudou-um-pouco-depois-das-eleições-de-2018">Isso mudou um pouco depois das eleições de 2018.</h3>

<p>Nesta época eu já tinha feito o primeiro ano de Física, tinha passado os primeiros perrengues, perdido alguns amigos que desistiram do curso, feito amigos novos. Apesar dos pesares, riamos dos memes da internet, entre eles apareciam vez ou outra memes do <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolsonaro</code>.</p>

<p>Para mim, que era uma pessoa alheia à política nesse nível de detalhe, era uma figura completamente desconhecida, e o humor sempre se deu pela caricatura e absurdismo dos memes.</p>

<p>Qual não foi minha surpresa em ver que as pessoas estavam realmente considerando colocar aquele palhaço que eu via em memes como presidente do país. Eu achava que não tinha me alienado aos detalhes como o <em>impeachment</em> da Dilma e o governo Temer, acusações de corrupção do PT e prisão do Lula, no entanto, não conseguia conceber aquela candidatura, era uma aberração ilógica. Eu até tentei convencer, através da internet, meus familiares e amigos no <em>Facebook</em>, mas nada adiantava. Eles repetiam <em>ad eternum</em> os mesmos “argumentos”: a esquerda é o demônio na terra, o comunismo ronda o mundo, o PT é comunista, o Lula é ladrão, o <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolsonaro</code> tem propostas excelentes: castração química para estupradores e etc.</p>

<p>Eu simplesmente não entendia, como pode alguém achar que aquilo que se desenhava no horizonte era viável. Eu tentava apelar para a moralidade mas isso não adiantava — a moral deles já estava alinhada, eu tentava apelar para a racionalidade, mas apareciam linhas de raciocínio terríveis, uma pior que a outra.</p>

<p>Todas as respostas embutidas em imagens facilmente compartilháveis.</p>

<p>(Sim, até hoje me dá uma vontade de gritar com todo mundo daquela época <strong>EU AVISEI, NÃO AVISEI????</strong> mas não quero voltar aquela merda nunca mais!)</p>

<p>Inclusive, eu tive a súbita revelação de que pessoas da minha família que considerava pessoas razoáveis, abraçando pautas e relativizando os discursos extremistas do <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolsonaro</code>.</p>

<p>E agora a pior parte, eu não ia conseguir voltar para minha cidade, que ficava a cerca de 20 horas de estrada e uma quantia de dinheiro que na época para mim era bastante dinheiro (de certo modo, ainda é). Não sabia que tinha como transferir o título e já tinha perdido o prazo (inclusive, <em>jovem</em>, <a href="https://www.tse.jus.br/servicos-eleitorais/titulo-eleitoral/autoatendimento-eleitoral/autoatendimento-eleitoral-titulo-net">vê se não pastela!</a>)</p>

<p>De qualquer maneira, o estrago já estava feito no primeiro turno <strong>46,03%</strong> para <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolsonaro</code> contra <strong>29,28%</strong> de Fernando Haddad. Ninguém solta a mão de ninguém, Fascistas não passarão, Ele não, Prefiro Ciro e etc. Nada adiantou, o segundo turno entre o PT, que estava com a reputação terrível devida à conjuntura (Lava Jato, Prisão do Lula e etc) e o <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolsonaro</code> já estava decidido.</p>

<h3 id="passaram-deu-ele-sim">Passaram, Deu ele sim</h3>

<p>Todo mundo tentava processar o que tinha acontecido, dedos eram apontados e todos tentavam entender o que tinha acontecido com a esquerda e o Brasil, mas ninguém conseguia entender muito bem.</p>

<p>Para o meu desespero, as coisas desandaram legal: Vieram reprovações em Mecânica Clássica e Eletromagnetismo, mais e mais pessoas desistiam do curso e a pior notícia do Governo era a seguinte. A esperança em ter um governo que era minimamente razoável esvaía-se cada vez mais. Por motivos óbvios, eu precisei me focar cada vez mais nas disciplinas e tentei me alienar outra vez da política, felizmente <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolsonaro</code> não conseguia fazer tudo aquilo que ele tinha prometido. Como tinha reprovado pela primeira vez, coisa que eu tentava evitar a todo custo, eu resolvi relaxar um pouco, tinham martelado tanto que na universidade só tinha vagabundo e maconheiro que eu resolvi ter uma vida social mais ativa: comecei a tentar ir nas festinhas da faculdade com os amigos.</p>

<h3 id="quando-tudo-parecia-que-não-ia-ficar-tão-ruim">Quando tudo parecia que não ia ficar tão ruim.</h3>

<p>Veio a notícia de que tinha um certo vírus por aí, ninguém sabia muito bem o que era para fazer. As recomendações que surgiam eram meio difusas, inicialmente acharam que íamos só precisar usar máscara durante as aulas e era isso.</p>

<p>Ledo engano, as notícias de uma doença respiratória se espalhava e eu que morava no alojamento recebi a notícia de que as aulas seriam remotas. Já que fiquei com receio de pegar um vírus ao qual não existia sequer informação sobre sintomas direito, e eu tinha pessoas vulneráveis na minha casa, resolvi ficar. Durante a COVID eu me isolei dentro da universidade mesmo, em especial dentro do quarto.</p>

<p>Neste momento, eu voltei a acompanhar as notícias sobre as ações do Governo.</p>

<h3 id="e-foi-um-horror">E foi um horror</h3>

<p>Além de se isentar da responsabilidade, a atuação do Governo era desastrosa. Primeiro desqualificavam as soluções propostas pelos especialistas, ignoravam a curva de mortes que aumentava a cada dia e o risco da pane no sistema de saúde.</p>

<p>Tentavam a todo custo manter a máquina da economia funcionando, custasse a vida de quem fosse.</p>

<p>Quando surgia alguma fagulha de esperança, frente ao desenvolvimento em tempo recorde da vacina, disseminavam discursos anti-vacinação e teorias conspiratórias.</p>

<p>Foram <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/marco/brasil-chega-a-marca-de-700-mil-mortes-por-covid-19">700 mil mortes</a>.</p>

<h3 id="pós-2022">Pós-2022</h3>

<p>Após finalmente conseguir me vacinar, em múltiplas doses, as coisas pareciam melhorar. Finalmente ia poder rever minha família, que sobreviveu a todo esse inferno e principalmente <strong>IA PODER VOTAR NA PORRA DO LULA</strong> e ainda tive que convencer pessoas da minha família que votariam no <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolsonaro</code> a <strong>SIMPLESMENTE NÃO VOTAR</strong> (<em>pois é, mesmo após isso tudo ainda tive que bater o pé, gritar e espernear, deixar bem claro o que estava em jogo era o meu futuro, uma grande chantagem emocional da qual me orgulho É MUITO</em>)</p>

<p>A frente ampla pela democracia finalmente deu certo, entrou o <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Alckmin</code>, entrou <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Simone Tebet</code>, entrou a porra toda nesse caralho de governo, mas pelo menos essa corja maldita ia sair da política.</p>

<p>Tudo parecia que estaria mais ou menos arrumadinho na minha vida, entraria no mestrado, tentaria um concurso e bom poderia descansar um pouco.</p>

<h3 id="arrumadinho">Arrumadinho</h3>

<p>Não vou entrar em muitos detalhes pessoais, mas o Governo já meteu logo um ajuste no valor do <strong>SALÁRIO</strong> que chamam de bolsa de mestrado.</p>

<p>Tive que me mudar, alugar uma casa, pagar contas, fazer as novas disciplinas do curso etc.</p>

<p>Me iludi, me desiludi, as perspectivas ampliaram e depois reduziram.</p>

<p>O projeto andou, desandou, atrasou e recentemente avançou um pouco mais.</p>

<p>Em vez de escrever a dissertação (é esse o nome?) estou aqui desabafando num blog, em vez de ajustar os parâmetros e rodar novamente a simulação.</p>

<p>O dinheiro da reserva financeira que fiz da bolsa vai se esgotando, minha perspectiva de passar no doutorado não me parece muito boa e as perspectivas começam a ruir.</p>

<p>Começo a me preparar psicologicamente para os piores cenários, e tenho ficado um pouco mais pessimista sobre eles.</p>

<h3 id="a-ilíada-do-judiciário">A ilíada do judiciário</h3>

<p>Sempre usei o YouTube com o histórico desligado, depois do bloqueio do X acabei criando uma persona nova na internet nas redes (inclusive, no <a href="https://bsky.app/profile/did:plc:ogyu3soahewfinml6hkziara">bsky</a>) e comecei assistindo alguns vídeos recomendados sobre matemática, física, música e <em>línguas</em>.</p>

<p>Por um acaso do algoritmo, encontrei o <a href="https://www.youtube.com/@FelipeDurante">Felipe Durante</a>, que é um engenheiro de produção que mora na China há bastante tempo e tem vídeos legais sobre a cultura e história da China, além de vídeos sobre política em geral. Eu que tinha uma visão bem ignorante e senso comum da China, passei a vê-la com outros olhos, inclusive percebendo a mudança que vem acontecendo na economia global.</p>

<p><em>Durante</em> suas lives onde costuma reagir a vídeos de figuras bastante caricatas da direita brasileira, os famosos <em>doidinhos de bairro</em>, conheci também o panteão dos <em>webcomunistas</em>, dos quais sempre tive um certo receio básico que vem do anticomunismo dominante.</p>

<p>No entanto, vi que são pessoas comuns, carismáticas e que <strong>ao contrário</strong> do que é muito difundido pela direita, sabem muito mais sobre economia do que os <em>papagaios de direita</em> fazem parecer.</p>

<h3 id="sobre-as-ideias-do-barbudo">Sobre as ideias do barbudo</h3>

<p><code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code>, o mais famoso dos três porquinhos, é justamente quem possui um entendimento sobre como <em>dis</em>funciona o capitalismo. Não li os calhamaços d’O Capital ainda, nem metade dos textos que existem, porém tive uma boa exposição das ideias através do <a href="https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/marx-uma-introducao-152696">Marx: uma introdução, de Jorge Grespan</a>, na qual é possível obter um apanhado geral dos conceitos que são fundamentais da sua <em>crítica</em> ao capitalismo.</p>

<p>Eu gosto muito dessa sequência que é apresentada na série <em>Mr Robot (2015)</em>:</p>

<blockquote>
  <p>Existe um grupo de poderoso de pessoas lá fora que secretamente manda no mundo</p>

  <p>Estou falando de pessoas que ninguém conhece.</p>

  <p>Pessoas que são invisíveis.</p>

  <p>Elas são o 1% do 1%.</p>
</blockquote>

<p>Em outra obra do mesmo autor, <em>Sam Esmail</em>, o personagem G.H, que ao que dá a entender é um trader afroamericano abastado no longa <em>Leave The World Behind (2023)</em> remenda esse pequeno detalhe que escapa na obra anterior:</p>

<blockquote>
  <p>Uma teoria da conspiração sobre um grupo sombrio de pessoas que mandam no mundo é uma explicação muito preguiçosa.</p>

  <p>Principalmente quando a verdade é muito mais assustadora.</p>
</blockquote>

<p>O outro personagem pergunta, e qual seria essa verdade?</p>

<blockquote>
  <p>Ninguém está no controle.</p>

  <p>Não há ninguém puxando as cordas</p>
</blockquote>

<p>E eu adoro este momento do filme.</p>

<p>É justamente o que <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code> fez muitos anos antes, ao revelar que esse grupo malvado de pessoas, ao contrário do senso comum, NÃO EXISTE.</p>

<p>Não há coordenação por baixo dos panos, ninguém controla esse sistema e esse é EXATAMENTE o motivo dele quebrar de tempos em tempos.</p>

<h3 id="comunismo-webcomunismo">Comunismo, <em>webcomunismo</em></h3>

<p>Recentemente, entrei em contato com o conteúdo do <a href="https://www.youtube.com/@ateuinforma">Pedro Ivo</a>, que é uma pessoa extremamente carismática e possui divergências com várias teses correntes na esquerda e nas humanas.</p>

<p>Longe de dominar completamente todas as críticas que ele faz, existem algumas em especial que chamaram minha atenção, o <em>antipetismo</em> e o <em>anti-iluminismo</em> que povoa a chamada esquerda radical ou revolucionária.</p>

<h3 id="mas-não-pode-criticar-o-pt">“Mas não pode criticar o PT?”</h3>

<p>Encontrei o canal do Ivo, o chamado <em>ateuinforma</em>, através da <em>Croezinha</em>. Na época, eu ainda estava procurando entender as brigas internas dentro da esquerda, as diferentes correntes de pensamento, e claro, dar umas risadas também.</p>

<p>Bom, eu já estava vendo trechos das rinhas entre <em>doidinhos de bairro</em> e os <em>comunistas</em>. Claramente, em embates intelectuais as personas de esquerda levam a melhor tecnicamente. Porém, como vimos com <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Álvaro Borba</code> em seu embate vexaminoso com <em>mamãefalei</em>, não basta apenas possuir o <em>ethos</em> (a credibilidade, a experiência, a moral, etc.) — é preciso também dominar o <em>pathos</em>, que são basicamente as emoções da audiência.</p>

<p>Foi assim que conheci o <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Jones Manoel</code>, através de seu canal <em>Farol Brasil</em>, onde ele se apresenta como uma figura de esquerda crítica. No início, achei interessante sua abordagem, mas logo percebi que se tratava de um militante do PCBR (um racha entre o PCB e a juventude do partido) que disfarçava ataques ao governo Lula como se fossem “críticas necessárias”. Suas teses frequentemente igualavam PT e Bolsonaro como sendo “fundamentalmente iguais”, exceto talvez no manejo da pandemia, ou tratava figuras como Haddad como “neoliberais disfarçados”.</p>

<p>Foi então que o <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Pedro Ivo</code> alertou para o perigo dessa linha de pensamento: ao igualar coisas que são fundamentalmente diferentes, estamos repetindo o erro histórico do <strong>socialfascismo</strong> stalinista. Nos anos 1930, a Terceira Internacional (Comintern) classificou os partidos social-democratas como <em>socialfascistas</em>, tratando-os como equivalentes ao nazismo. Essa posição teve consequências catastróficas: impediu que a esquerda se unisse contra Hitler, contribuindo diretamente para o fortalecimento do nazismo na Alemanha.</p>

<p>A crítica do Pedro Ivo é contundente: quando parte da <em>webcomunada</em> trata o PT como se fosse igual ao bolsonarismo, ou quando reduz toda a política a uma falsa equivalência entre progressismo e fascismo, está cometendo o mesmo erro histórico. Essa posição não é “crítica”, mas sim uma forma de sabotagem política que beneficia exclusivamente a direita extremista.</p>

<p>A lição histórica é clara: reconhecer as diferenças qualitativas entre governos é fundamental para construir estratégias políticas eficazes. Não podemos cair no erro de tratar como equivalentes um governo que implementa políticas sociais e um que promove genocídio durante uma pandemia, como vimos com as 700 mil mortes no Brasil. A verdadeira crítica de esquerda precisa ser capaz de reconhecer avanços e limites sem cair na armadilha do equivalencismo, que historicamente só serviu para fortalecer o fascismo.</p>

<h3 id="o-aceleracionismo-perigoso-da-webcomunada">O Aceleracionismo Perigoso da Webcomunada</h3>

<p>O que mais me incomoda na <em>webcomunada</em> não é apenas a superficialidade de suas críticas, mas sim o aceleracionismo disfarçado de radicalidade. Essa postura, que insiste que “quanto pior, melhor”, revela uma desconexão total com a realidade material das pessoas — aquelas 700 mil famílias que perderam entes queridos durante a pandemia não estão interessadas em teorias abstratas sobre “lutar na base do tudo ou nada”.</p>

<p>Pedro Ivo chama atenção para como parte da esquerda online caiu num vórtice de autossabotagem política: em nome de uma pureza ideológica inexistente, tratam governos progressistas como se fossem equivalentes ao fascismo. Quando o Jones Manoel do PCBR afirma que Haddad é “neoliberal” ou que PT e Bolsonaro são “fundamentalmente iguais”, está repetindo o mesmo erro estratégico que levou ao fortalecimento de Hitler na Alemanha — o socialfascismo stalinista que tratava social-democratas como equivalentes aos nazistas.</p>

<h3 id="se-é-burguês-não-presta">“Se é burguês, não presta.”</h3>

<p><code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code>, apesar de ser um crítico radical do capitalismo, nunca rejeitou os avanços das revoluções burguesas — pelo contrário, ele os incorporou em sua própria metodologia. Sua crítica ao capitalismo foi feita <strong>com as ferramentas do Iluminismo</strong>: razão, ciência, busca por verdades objetivas e a ideia de progresso histórico (mesmo que reinterpretado de forma dialética e materialista).</p>

<p>O que o pós-modernismo fez, particularmente em certas vertentes da esquerda, foi justamente <strong>jogar fora o bebê com a água do banho</strong>. Ao rejeitar categorias como “verdade objetiva”, “progresso” e “razão universal”, criou-se um vácuo teórico que impede uma análise materialista consistente do capitalismo, leva ao relativismo extremo onde “tudo é igual” e neutraliza a capacidade da esquerda de propor alternativas concretas baseadas em evidências.</p>

<blockquote>
  <p>A tragédia histórica é que <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code> usou a melhor tradição do Iluminismo para criticar seus limites no contexto capitalista, enquanto parte da esquerda contemporânea abandonou as ferramentas necessárias para fazer essa crítica de maneira eficaz.</p>
</blockquote>

<p>Quando a esquerda começa a tratar <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Haddad</code> como “neoliberal” ou iguala <code class="language-plaintext highlighter-rouge">PT</code> e <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolsonaro</code>, está operando dentro dessa lógica pós-moderna que rejeita a possibilidade de analisar diferenças qualitativas entre regimes políticos — exatamente o oposto da metodologia marxista, que sempre enfatizou a análise concreta de situações concretas.</p>

<p>É por isso que a crítica ao anti-iluminismo é tão importante: sem a confiança na razão e na ciência (que não são perfeitas, mas são nossas melhores ferramentas), a esquerda perde sua capacidade de distinguir entre o que é progressivo e o que é reacionário, repetindo assim os erros históricos do socialfascismo.</p>

<p>Sem perceber, os <em>webcomunistas</em> estão minando as bases teóricas necessárias para uma esquerda eficaz e abrindo caminho para o fortalecimento de uma extrema-direita.</p>

<p>Primeiro, há um <strong>problema geracional</strong>: muitos ativistas online cresceram em um período pós-2016 onde a polarização atingiu níveis extremos, e passaram a ver toda política através dessa lente distorcida de “PT versus anti-PT”, esquecendo que existem diferenças qualitativas entre um governo que implementa políticas sociais e um que promove genocídio.</p>

<p>Segundo, há um <strong>problema de plataforma</strong>: nas redes sociais, a postura mais radical e aceleracionista gera mais engajamento. Críticas moderadas e matizadas não viralizam como “PT é igual ao Bolsonaro” ou “Lula é mais neoliberal que Bolsonaro”. Isso cria um incentivo perverso para que figuras da “webcomunada” adotem posições cada vez mais extremas para ganhar seguidores.</p>

<p>Terceiro, há um <strong>problema teórico</strong>: parte da esquerda abandonou o materialismo histórico em favor de abstrações pós-modernas que negam a possibilidade de progresso real. Se tudo é igualmente ruim, então qualquer governo é indistinguível de um fascista — o que é exatamente o oposto do que <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Marx</code> ensinou sobre analisar as contradições específicas de cada momento histórico.</p>

<p>A tragédia é que essa postura não apenas é intelectualmente desonesta, mas também politicamente suicida. Ao tratar como equivalentes um governo que restabelece o Bolsa Família e um que celebra torturadores, esses “comunistas de internet” estão, sem perceber, fazendo o jogo da direita. Como dizia o próprio Marx: “A história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa.” O socialfascismo dos anos 1930 foi uma tragédia; vermos sua réplica na “webcomunada” contemporânea é uma farsa trágica.</p>

<h3 id="velho-fascista-e-morto-era-também-mentiroso">Velho, Fascista e Morto. Era também mentiroso!</h3>

<p>Não vou negar que me causou um estranhamento ao ver que o <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Pedro Ivo</code>, de certa forma, alerta para o fato de que a esquerda ignora e ignorou a figura do <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Olavo de Carvalho</code>, como sendo apenas um lunático, um <em>burro</em>.</p>

<p>Até que enfim, YouTube me recomendou um vídeo de um canal aleatório com o título “Dialética | Olavo de Carvalho”. Eu hesitei. Não queria <strong>dar palco</strong> e você deve bem conhecer os discursos que tentam chancelar e domar a lógica das redes através das nossas ações individuais (uma visão de esquerda LIBERAL no mundo, talvez eu entre em detalhes no futuro).</p>

<p>Tomei a decisão de assistir a esse vídeo, nele <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Olavo de Carvalho</code> estava tratando um assunto: o motivo pelo qual a Esquerda domina nas eleições e a Direita não entende, por não compreender a cabeça dos comunistas.</p>

<p>O que ouvi me fez ter um verdadeiro momento de <em>eureka</em>: Olavo explicava que na visão dele, a direita, por ser positivista e cartesiana, não compreende como a dialética funciona na prática política. Segundo ele, a esquerda ganha eleições justamente por operar com contradições aparentes, por ser “maluca e contraditória”, e que a direita deveria aprender a fazer o mesmo. Ele citava exemplos como “o governo russo, sendo cristão ortodoxo, apoia países islâmicos” para ilustrar o que chamava de “lógica dialética” da esquerda.</p>

<p>Foi então que percebi: essa não é uma burrice da direita, mas sim uma estratégia deliberada de construção de narrativas políticas. A extrema direita descobriu que pode operar com contradições explícitas sem se preocupar com coerência lógica — defendendo ditadura enquanto simultaneamente alega que já vivemos sob uma ditadura, por exemplo. E justificam essas contradições chamando-as de “processos dialéticos”.</p>

<p>A grande revelação foi entender que essa filosofia aparentemente incoerente, embora seja uma deturpação completa da dialética marxista (que, aliás, nunca funcionou assim), demonstrou ser eficaz na prática política.</p>

<p>Seja por mera coincidência ou não, figuras como <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Bolsonaro</code> conseguiram mobilizar as pessoas com discursos contraditórios e subiram ao poder — não porque seus seguidores são burros, mas porque essa é exatamente a metodologia política que foi desenvolvida.</p>

<p>Por anos, a esquerda ridicularizou <code class="language-plaintext highlighter-rouge">Olavo</code> como um “velho fascista maluco e mentiroso” (o que ele de fato é), sem perceber que ele havia identificado e instrumentalizado com precisão uma fraqueza estratégica, a insistência em coerência lógica em um campo político onde a contradição deliberada pode ser mais eficaz.</p>

<p>Foi um choque perceber que, mesmo sendo um completo charlatão, ele produziu resultados mensuráveis na política brasileira — e que sua “filosofia de merda”, de certa forma, pode ter funcionado.</p>

<p>Agora entendo que não se trata simplesmente de burrice ou ignorância, mas de um M.O. político consciente. E é justamente por isso que essa galera o idolatra tanto — não por suas ideias, mas por sua aparente eficácia prática em construir narrativas que ressoam, mesmo quando logicamente incoerentes.</p>]]></content><author><name>Cabra</name></author><category term="politics" /><summary type="html"><![CDATA[Como Olavo descobriu a fraqueza da esquerda que ajudou Hitler e elegeu Bolsonaro]]></summary></entry><entry><title type="html">Godot Adventures</title><link href="https://blog.cabra.su/godot-adventures.html" rel="alternate" type="text/html" title="Godot Adventures" /><published>2025-01-11T00:00:00+00:00</published><updated>2025-01-11T00:00:00+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/godot-adventures</id><content type="html" xml:base="https://blog.cabra.su/godot-adventures.html"><![CDATA[<p>I’ve been working with Godot since last year (2024). I had used it in the past and found it really enjoyable, with excellent documentation and plenty of resources. The latest major version, Godot 4.X, introduced many new features. Before its release, I was particularly excited about the improvements to the State Machine.</p>

<p>So far, I’ve managed to set up retro PSX-style visuals, physics-based interactions with objects, and some basic text descriptions. It’s pretty simple stuff, but I’m happy with the results.</p>

<p><img src="assets/2025/01/11/imgs/godot-adventures.png" alt="godot-adventures" /></p>

<p>Recently, I was developing a system to play sounds based on the material metadata of each object’s <a href="https://docs.godotengine.org/en/stable/classes/class_collisionshape3d.html"><code class="language-plaintext highlighter-rouge">CollisionShape3D</code></a>. This allows me to assign different collision sounds for each material—and even let the same object emit different sounds depending on which part of it is hit.</p>

<p>Initially, I used a <a href="https://docs.godotengine.org/en/stable/classes/class_dictionary.html"><code class="language-plaintext highlighter-rouge">Dictionary</code></a> to map materials to an <a href="https://docs.godotengine.org/en/stable/classes/class_array.html"><code class="language-plaintext highlighter-rouge">Array</code></a> of sounds and then played the appropriate sound. While it worked, the system was difficult to maintain and adding new sounds was cumbersome. To address this, I switched to using a <a href="https://docs.godotengine.org/en/stable/classes/class_resource.html"><code class="language-plaintext highlighter-rouge">Resource</code></a>, which essentially wraps the <a href="https://docs.godotengine.org/en/stable/classes/class_dictionary.html"><code class="language-plaintext highlighter-rouge">Dictionary</code></a> and allows for easier editing within the Godot editor. However, this approach introduced its own challenge: scrolling through an overwhelming number of resources to find the one I wanted to add.</p>

<p><img src="assets/2025/01/11/imgs/crazy-amount-of-resources.png" alt="crazy-amount-of-resources" /></p>

<p>While dictionaries are a great data structure, resources are much more powerful because they can be referenced by unique IDs and edited directly in the editor. Still, I wanted to find a way to make adding and editing sounds for each material more streamlined.</p>

<p>That’s when I thought about creating an interface similar to the <a href="https://docs.godotengine.org/en/stable/classes/class_spriteframes.html"><code class="language-plaintext highlighter-rouge">SpriteFrames</code></a> panel, which appears when you use the <a href="https://docs.godotengine.org/en/stable/classes/class_animatedsprite2d.html"><code class="language-plaintext highlighter-rouge">AnimatedSprite2D</code></a> node. With SpriteFrames, you can add animation names and frames for each animation and then play them with a simple call like <code class="language-plaintext highlighter-rouge">animation.play("animation-name")</code>.</p>

<p>I needed something similar but designed for sounds. After coding for several hours, digging into Godot’s open-source code, and leveraging AI chat tools, I finally created the perfect plugin for my needs:</p>

<p><img src="assets/2025/01/11/imgs/the-perfect-plugin.png" alt="the-perfect-plugin" /></p>

<p>While it’s not entirely perfect yet—you might notice a few odd buttons and minor bugs—the sound system works, and I can now easily manage collections of sounds for each material.</p>]]></content><author><name>Cabra</name></author><category term="coding" /><summary type="html"><![CDATA[I’ve been working with Godot since last year (2024). I had used it in the past and found it really enjoyable, with excellent documentation and plenty of resources. The latest major version, Godot 4.X, introduced many new features. Before its release, I was particularly excited about the improvements to the State Machine.]]></summary></entry><entry><title type="html">Cards.js</title><link href="https://blog.cabra.su/cards-js.html" rel="alternate" type="text/html" title="Cards.js" /><published>2025-01-01T00:00:00+00:00</published><updated>2025-01-01T00:00:00+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/cards.js</id><content type="html" xml:base="https://blog.cabra.su/cards-js.html"><![CDATA[<p>I’ve been revamping this super cool javascript library that helps building card games.</p>

<p>You can find more about it <a href="https://blog.cabra.su/cards.js">here</a>.</p>

<style>
:root {
   --width: min(400px,80vw);
   --height: var(--width);
}
cards-js {
  background-color: green;
  height: var(--height);
  width: var(--width);
  border: solid 6px brown;
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  flex-shrink: 0;
  display: inline-flex;
}
</style>

<center>
<cards-js id="#cards-js"></cards-js>
</center>]]></content><author><name>Cabra</name></author><category term="coding" /><summary type="html"><![CDATA[I’ve been revamping this super cool javascript library that helps building card games.]]></summary></entry><entry><title type="html">Paranoia</title><link href="https://blog.cabra.su/paranoia.html" rel="alternate" type="text/html" title="Paranoia" /><published>2024-11-27T00:00:00+00:00</published><updated>2024-11-27T00:00:00+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/paranoia</id><content type="html" xml:base="https://blog.cabra.su/paranoia.html"><![CDATA[<p>Today I got paranoid with implicit conversions.</p>

<p>I was sure that <code class="language-plaintext highlighter-rouge">iu</code> would coerce <code class="language-plaintext highlighter-rouge">iu * j</code> to a complex type, divided by a integer would still be of a complex type.</p>

<p>But somehow I was getting a zeroed array in my output, so I got afraid I was having a integer division problem.</p>

<pre><code class="language-f90">! d/dky F(k) = - i * ky * F(k)
do j = -Gy, Gy
    iky = iu * j / (2 * Gy + 1)
    dF(:,j,:) = - iky * F(:,j,:)
end do
</code></pre>

<p>I tried group the multiplication this way I would force the type coercion, right? Still didn’t worked.</p>

<pre><code class="language-f90">! d/dky F(k) = - i * ky * F(k)
do j = -Gy, Gy
    iky = (iu * j) / (2 * Gy + 1)
    dF(:,j,:) = - iky * F(:,j,:)
end do
</code></pre>

<p>So I got paranoid and made a explicit conversion…</p>

<pre><code class="language-f90">iky = iu * real(j,wp) / (2 * Gy + 1)
</code></pre>

<p>it didn’t worked either! 
So I got even MORE paranoid explicit conversions everywhere…</p>

<pre><code class="language-f90">iky = iu * real(j,wp) / real(2 * Gy + 1,wp)
</code></pre>

<p>Started checking every other possibility… everything was a lie!</p>

<pre><code class="language-f90">iky = iu * real(j,wp) / (2.0_wp * Gy + 1.0_wp)
</code></pre>

<p>Until I finally saw the type of iky:</p>

<pre><code class="language-f90">real(wp) :: ikx, iky, ikz
</code></pre>]]></content><author><name>Cabra</name></author><category term="fortran" /><summary type="html"><![CDATA[Today I got paranoid with implicit conversions.]]></summary></entry><entry><title type="html">Hello World</title><link href="https://blog.cabra.su/hello-world.html" rel="alternate" type="text/html" title="Hello World" /><published>2024-11-15T00:00:00+00:00</published><updated>2024-11-15T00:00:00+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/hello-world</id><content type="html" xml:base="https://blog.cabra.su/hello-world.html"><![CDATA[<p>Hello World!</p>]]></content><author><name>Cabra</name></author><category term="coding" /><summary type="html"><![CDATA[Hello World!]]></summary></entry><entry><title type="html">Tetrahedron</title><link href="https://blog.cabra.su/tetrahedron.html" rel="alternate" type="text/html" title="Tetrahedron" /><published>2024-11-15T00:00:00+00:00</published><updated>2024-11-15T00:00:00+00:00</updated><id>https://blog.cabra.su/tetrahedron</id><content type="html" xml:base="https://blog.cabra.su/tetrahedron.html"><![CDATA[]]></content><author><name>Cabra</name></author><category term="coding" /><summary type="html"><![CDATA[]]></summary></entry></feed>